Recordações breves se entrelaçam na memória, misturando-se com cenas vividas.
Uma casa grande no meio de Lisboa como pano de fundo, a minha bisavó como sempre nos seus afazeres, entre a cozinha e o resto da casa, aquele sorriso imenso cheio de amor, comtemplando-me embevecida:
-Anda meu amor, ainda tens trabalhos da escola para fazer.
-E a mãe bisavó?
-Vai chegar tarde mas não te preocupes querida, vai-te despachar.
Aquela resposta eu já a sabia de cor, a ausência era uma constante, são muito vagas as recordações do seu amor por mim, ou da sua presença, o trabalho ocupava toda a sua vida, parecia não sobrar espaço para mais nada.
Embora o amor da bisavó completasse tudo o que existia no meu pequeno mundo nessa altura, o bisavô fazia-lhe muita falta, por vezes encontrava-a num cantinho da casa, quase escondida, com aqueles lindos olhos negros, marejados de lágrimas, era uma fraca figura, que com o passar do tempo acorcundava, o rosto sulcado por várias rugas, testemunho de uma vida de sacrifício, foi feliz sem dúvida, denunciava-o, quando dos seus lábios saíam histórias que soavam a melodias doces e agradáveis de se ouvir, diziam que tinha sido muito bonita, para mim era sem dúvida a pessoa mais linda do mundo.
Ainda sinto o perfume que deixava no ar, aroma de rosas, aroma de serenidade, é saudosismo sem dúvida, dava tudo por um abraço seu, por sentir de novo o pulsar do seu coração quando me segurava em seus braços, talvez um dia quem sabe.
O soalho rangia á sua passagem, a mesa de sala oval, servia de secretária, sentada ali no meio sentia-me uma princesa no trono, iluminada pelo candeeiro de cristal meticulosamente limpo, reflectia uma luz ténue.
Beijocas até amanhã
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